Ciúme e inveja
Orson Peter Carrara
Sentimentos contrariam adesão aos princípios morais
Recordando Allan Kardec
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| Inveja e ciúme |
Esses
dois sentimentos são destruidores da paz que se deve buscar para a harmonia da
convivência. Apegos, medos e especialmente a insegurança pessoal, aliados ao
egoísmo são seus geradores. Além da presença nos lares, nos relacionamentos,
eles também comparecem com toda força nas instituições inspiradas pelo
Espiritismo, pois que provenientes da imperfeição do caráter humano, ainda
necessitado de correções morais. Como destaca Allan Kardec em O Livro
dos Médiuns1, item 336, referindo-se aos inimigos do Espiritismo,
“(...) os mais perigosos não são os que o atacam abertamente, mas os que agem
nas sombras; estes, o acariciam com uma mão e o difamam com a outra. (...)
graças aos surdos enredos que passam desapercebidos, semeiam a dúvida, a
desconfiança e a desafeição; sob a aparência de um hipócrita interesse pela
coisa, criticam tudo, formam conciliábulos e rodas que cedo rompem a harmonia
do conjunto (...) Esse estado de coisas, deplorável em todas as sociedades, o é
mais ainda nas sociedades espíritas, porque se não levam a uma ruptura, causa
uma preocupação incompatível com o recolhimento e a atenção”.
São
severos inimigos da boa convivência. Filhos do orgulho, comparecem na seara
doutrinária do Espiritismo com os sintomas da animosidade crônica. Diríamos que
como uma estranha rivalidade com alguém ou um fechamento intencional do afeto,
que coagula as emoções na frieza disfarçada. Tais sentimentos não aceitam a
felicidade, o êxito alheio ou perfis psicológicos diferentes dos quesitos
pessoais do próprio invejoso ou ciumento. E formam os sutis detetives da
conduta alheia. Na verdade significam apego e apropriação de espaços de
trabalho, em cargos ou atividades, e mesmo ainda em autênticas disputas mentais
que o invejoso trava entre si e aquele que julga como oponente, em razão muitas
vezes, da desenvoltura do imaginário adversário.
A
Revista Espírita2 traz abordagens sobre tais temas. O
Espírito São Luiz abordou a questão da inveja, respondendo a um questionamento:
“(...) seu Espírito está inquieto, sua felicidade terrestre está no auge; ele
inveja o ouro, o luxo, a felicidade aparente ou fictícia de seu semelhante; seu
coração está destroçado, sua alma surdamente consumida por essa luta incessante
do orgulho, da vaidade não satisfeita; ele carrega consigo, em todos os
instantes de sua miserável existência, uma serpente que ele reaquece, que lhe
sugere, sem cessar, os mais fatais pensamentos: ‘Terei essa volúpia, essa
felicidade?’ (...) E se debate sob sua impotência, vítima dos horríveis
suplícios da inveja. (...)” E conclui: “(...) Fazei vossa felicidade e vosso
verdadeiro tesouro sobre a Terra as obras de caridade e de submissão, as únicas
que devem contribuir para serdes admitidos no seio de Deus; essas obras do bem
farão vossa alegria e vossa felicidade eternas; a inveja é uma das mais feias e
das mais tristes misérias do vosso globo; a caridade e a constante emissão da
fé farão desaparecer todos esses males (...)”
A
outra referência, sobre o ciúme2, está assinado por O
Espírito protetor do médium e trata-se de mensagem recebida na
presença do Codificador. Pondera o autor: “(...) O ciúme é o companheiro do
orgulho e da inveja; ele vos leva a desejar tudo o que os outros possuem, sem
vos dar conta se, invejando a sua posição, não pedis senão que se vos faça presente
uma víbora que aquecereis em vosso seio. (...)” Claro que esse comentário pode
ser estendido a todas as demais conquistas daquele que sofre a ação do ciúme e
não se circunscreve aos patrimônios materiais.
Em
ambos os casos, porém, a clara indicação do aprimoramento interior no combate a
esses sentimentos, frutos do orgulho. Ambos são tolos e causam enorme perda de
tempo, tranqüilidade e progresso. E já que a finalidade da presença do
Espiritismo no planeta é a melhora moral dos seres humanos, iniciemos desde já
uma análise interior para avaliar a presença desses indesejáveis sentimentos e
seu expurgo, mesmo que a longo prazo, para que possamos desfrutar da
incomparável experiência de viver buscando o progresso que a vida destina a
todos nós.
129a edição
IDE, novembro de 1993, tradução de Salvador Gentille.
2Em
Julho de 1858 sobre A inveja e Outubro de 1861, sobre O
ciúme. Edições do IDE, respectivamente páginas 177/178 e 315, tradução de
Salvador Gentille.

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